PORQUE O BRASIL ESTÁ SEM RUMO?

22:56Carlos Alberto-Jornalismo,isento e sem compromisso com mentiras.!

O Brasil se tornou um país sem rumo
A competitividade global do País começa a escorrer para o ralo, dando lugar ao assistencialismo barato, ao subsídio estúpido e à cotização do mercado aos moldes das cotas sociais.


Everaldo Leite
Não tem pouco tem­po que uma boa par­cela dos economistas e analistas brasileiros vem afirmando que o grande problema da nossa economia reside na altíssima taxa de juros bancada pelo governo. Que ela não deixa a nação avançar, causando, pelo contrário, desemprego e empobrecimento da sociedade. Que precisa ser substituída por artifícios fiscais a guisa de se estabelecer um novo instrumento de política econômica mais eficiente do que o da política monetária. E que, por fim, se for reduzida a patamares ditos “civilizados” entraremos num novo ciclo virtuoso de produção, trabalho, negócios e renda. Bem, tanto prescreveram tal expediente que, uns anos atrás, lembro que acabaram gerando uma fantasia coletiva, baseada na ideia de que existiriam no país duas vertentes intelectuais que se digladiavam na academia, na mídia e nos bastidores dos governos FHC e Lula, denominados desenvolvimentistas (“do bem”) e monetaristas (“do mal”). Ademais, de tanto clamarem aos anjos e demônios da política, instituíram no país um propósito unânime a ser alcançado, seja através das forças de mercado, seja pela iniciativa mandatória do governo.

Essa certeza genérica — de economistas e, especialmente agora, do governo — se baseia em escritos dos anos 1930, de John Maynard Key­nes, que explica como as oscilações da taxa de juros determinam as decisões dos empresários em investir, poupar ou especular. Ele explica que nunca há um equilíbrio espontâneo que leve ao pleno emprego, muito menos o mercado é capaz de resolver situações ruinosas automaticamente, já que qualquer reequilíbrio da economia somente se daria no longo prazo, de acordo com o pensamento clássico da época. Também que, como as questões econômicas são não probabilísticas, quase sempre imperam incertezas nas cabeças dos investidores, que, em momentos de crise, serão potencializadas. A sua teoria insiste, destarte, que alguma política deve ser implementada quando o país atravessa um regime restringido pela demanda, ou mesmo que, somente uma intervenção do governo pode alcançar um novo equilíbrio, com retomada do crescimento do produto e do emprego. 
Nos EUA, logo após a crise de 1929, para elevar a demanda efetiva da economia essa crença engendrou o New Deal, induzindo o governo americano a embarcar numa espiral de dispêndios que ficou muito além da sua receita e muito além de suas atribuições públicas, transformando o que deveriam ser tão somente medidas emergenciais em determinações ordinárias.

A ideia keynesiana, na prática, quer provar que numa nação normal — onde todos os fatores produtivos se encontram sensíveis às demandas do mercado, onde a infraestrutura econômica é satisfatória, onde a busca pela inovação tecnológica é uma constante, onde os trabalhadores são reconhecidos por sua qualidade de capital humano, onde há livre comércio externo e livre concorrência, onde o governo não é um rival da livre iniciativa —, uma queda consistente na taxa de juros determinará um adequado crescimento da economia, notadamente ao estimular o “espírito animal” dos empreendedores e ao acender um novo processo de destruição criativa schumpeteriana. Quer dizer, existe aí, no mínimo, uma expectativa apurada de que a engrenagem volte a funcionar a contento e que a locomotiva pegue no tranco quando a taxa de juros se encolher. (É preciso dizer, entretanto, que Keynes, quando redigiu seu texto, nunca imaginou uma estrutura econômica pavorosa como esta do Brasil, com tal carga tributária, com incontáveis leis anticompetitividade, com infraestrutura tão arcaica e com mão de obra tão incapacitada. Exclusivamente, ele se baseava em países já desenvolvidos como os EUA, Inglaterra e França, na me­lhor das hipóteses).

De fato, o economista inglês mostrou que existia a necessidade de um papel permanente para o governo, relacionado à adoção de políticas econômicas voltadas para impulsionar a demanda agregada, quanto para instituir um ambiente seguro no qual os empresários se sentissem estimulados a realizar novos investimentos, o que, logicamente, não deve ser confundido com a substituição dos mercados privados pela ação do Estado na determinação do investimento. Ora, Keynes nunca defendeu uma sociedade sem liberdade, com um Estado controlador das decisões individuais e com uma economia estatizada. A convicção estatizante só se materializou em função das decisões políticas posteriores. Com a aceleração da inflação no final da década de 1960 nos EUA, entretanto, verificou-se um declínio moral no intervencionismo estatal, quando os vaticínios monetaristas começaram a se concretizar e um alto preço econômico passou a ser cobrado, qual seja, a estagflação. Daí o economista Robert Lucas ter decretado a “morte do keynesianismo”, ex­pon­do cientificamente como as po­líticas ativistas tendem a ser completamente inócuas em quaisquer circunstâncias. Curiosamen-te, a experiência intervencionista americana contra a crise de 2008 vem dizendo a mesma coisa.

Em relação ao Brasil, o seu baixo crescimento deveria ser visto como um aviso claro de que uma política econômica expansionista “contracíclica”, aos moldes keynesianos, precisaria ser de curtíssima duração, sendo essencial e prioritária uma retomada de medidas mais ortodoxas no médio prazo para que o crescimento se torne algo realmente sustentável, como advertiram os novos economistas clássicos, dentre eles Lucas. Vemos hoje que mesmo com uma taxa básica de juros — controlada artificialmente pelo governo Dilma — em níveis efetivamente menores — atendendo finalmente às súplicas históricas de economistas e analistas —, isto não tem atraído ou despertado o interesse dos empresários, cujas perspectivas para este ano são um tanto sombrias e desanimadoras. A prova é que, faltando somente poucos meses para o Natal, diversos se­tores ainda não receberam encomendas para as festas e, em alguns casos, já evitam fazer projeções para as vendas. Em entrevista à Agência Estado, Humberto Barbato, presidente da Abinee, lembra que “a previsão no final de 2011 era de que as vendas do setor crescessem 11% em 2012, agora a estimativa é de alta de 8%, no máximo”. A mesma matéria mostra que a produção física do setor de vestuário caiu 12,8% no primeiro semestre face ao mes­mo período do ano passado e as im­portações avançaram em 30%, sen­do que a receita de importados, em valores, cresceu 39%. Por hora, esperemos os desdobramentos disto quando chegar 2013.

O que o nosso governo deveria ter percebido há muito tempo é que somente uma queda significativa na taxa de juros realmente não seria o suficiente para criar imediata recuperação do tipo New Deal (ou “New Dilma”?), mesmo se estivéssemos em momentos de normalidade internacional, pois nossos problemas vão além do conjuntural, como já foi explicado por vários outros economistas. Porém, o que mais vem incomodando a ala inteligente e honesta deste país — que parece não ser muita gente — é que o intervencionismo do governo fez renascer no empresariado brasileiro algo tão pernicioso quanto essas questões óbvias estruturais, que chamamos de custo Brasil. Ao perceber que o governo tem se preocupado com negócios específicos e, inadvertidamente, tem escolhido aqueles que “merecem” sua atenção e amparo, todos os setores produtivos passaram a pedir desoneração tributária e, no descaminho do protecionismo completo, a adoção de salvaguardas nas importações. Renasce, assim, o “jeitinho brasileiro” no mundo dos negócios, o que nos leva a crer que a questão da competitividade global do país começa a escorrer para o ralo, dando lugar ao assistencialismo barato, ao subsídio estúpido e à cotização do mercado aos moldes das cotas sociais. Também, que todas as conquistas e avanços da sociedade no caminho de um desenvolvimento baseado na democracia e na livre-iniciativa, com efeito, acabarão trocados por um ideário extravagante de um governo de esquerda delirante. Ainda, que abandonaremos o status de nação do futuro para nos tornarmos um ridículo e anacrônico protetorado mercantilista, estupidamente dependente de um Estado que nos diz sobre aquilo que precisamos em detrimento daquilo que queremos. Faça-me o favor! 
Everaldo Leite é economista


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