ALERTA! DF TERÁ 8 MIL CASOS DE CÃNCER ESTE ANO, MAS EQUIPAMENTOS DE TRATAMENTO SÃO ABANDONADOS.MP ENTRA NA BRIGA

22:34Carlos Alberto-Há 40 anos vivendo Brasília!

MÉDICOS SÃO PROCESSADOS PELO MPDF POR ABANDONO DE EQUIPAMENTO DE TRATAMENTO DE CANCER EM BRASÍLIA


O Distrito Federal tem seis mil pacientes em tratamento contra o câncer. Eles sofrem com as faltas de medicamentos, com as demoras nas consultas e atendimentos e a falta de vagas para fazer quimioterapia.

Mais de oito mil pessoas devem ser diagnosticadas com câncer no Distrito Federal neste ano e podem enfrentar dificuldades para descobrir e tratar a doença. O PET Scan, equipamento utilizado para identificar células cancerígenas e avaliar a extensão do tumor, foi comprado sem licitação por R$ 3 milhões há três anos e, desde então, aguarda infraestrutura para funcionar. Nos últimos dois anos, a falta do equipamento custou mais de R$ 130 mil à Saúde. O Ministério Público ajuizou ação contra cinco ex-gestores da pasta pela compra irregular que onera pacientes e Estado. 
A estimativa do Instituto Nacional do Câncer (Inca) é que, dos 8.550 diagnósticos previstos para 2016, 840 sejam de câncer de próstata e 1.020 de mama. Enquanto isso, o equipamento, que permite planejar a melhor estratégia para o tratamento da doença, está encaixotado e acumulando poeira em um corredor do Hospital de Base porque a secretaria não implementou a estrutura necessária para colocá-lo em funcionamento desde 2013. 

Segundo o Ministério Público, o processo para a reforma do local foi iniciado cinco meses depois da entrega do aparelho, mas até hoje não foi concluído. 
De acordo com a ação, o equipamento foi adquirido sem justificativa, sem licitação, sem planejamento técnico, sem estudos prévios e sem consultar a Diretoria de Engenharia Clínica de Equipamentos Médicos da Secretaria de Saúde. Por isso, cinco ex-gestores da pasta responderão por improbidade pela compra irregular do equipamento. Entre eles estão Rafael de Aguiar Barbosa, ex-secretário exonerado em 2014, e Roberto José Bittencourt, ex-subsecretário de Atenção à Saúde.
Prejuízo  
O levantamento do Ministério Público de Contas (MPC-DF) mostra que, entre 2014 e 2015, o abandono do aparelho custou à Saúde mais de R$ 132 mil pela contratação de exames na iniciativa privada, que custam   R$ 3 mil cada. 
Pacientes garantem o direito ao exame com ingresso de ações judiciais. A Defensoria Pública do DF não tem dados específicos de quem busca auxílio para conseguir exames do PET Scan. No entanto, o órgão informou que, no ano passado, foram 96 ações em 1.339 atendimentos. 
Saiba mais
Não é a primeira vez que o nome do ex-secretário de Saúde Rafael de Aguiar Barbosa está envolvido em polêmicas. No ano passado, o Jornal de Brasília mostrou que uma empresa que seria de um familiar seu mantinha contrato com o GDF desde 2010. 
O acordo com essa empresa, o Instituto de Doenças Renais (IDR), venceu em março de 2015, após quatro prorrogações autorizadas pelo próprio Barbosa. Em 2011, ele disse que não havia conflito de interesses em comandar a secretaria e, ao mesmo tempo, o órgão manter convênio com a clínica. 
“Ou paga ou fica sem fazer os exames”
Não bastasse o problema para diagnosticar a doença, o acompanhamento e o tratamento também estão complicados na rede pública de Saúde no DF. Pacientes relatam   dificuldades em todas as etapas. Maria Aparecida Silva, 57 anos, descobriu o câncer de mama em julho do ano passado. Sem assistência do governo, ela conta que teve de arcar com a maioria dos exames na rede particular. 
“Ou paga ou fica sem fazer. A doença se desenvolve  muito rápido, e, se fosse esperar pelos exames na rede pública, iria demorar muito. Máquinas de mamografia há muito estão desativadas, o equipamento de ressonância está parado e, na radiologia, há pelo menos três aparelhos quebrados. Sei disso porque é um problema quase que diário”, reclama. 
A paciente lembra que o problema atinge   muitos moradores do Distrito Federal, além da demanda de cidades vizinhas. “Eu ainda consigo pagar por eles, mas e quem não tem condições?”, questiona Maria Aparecida.

Versão oficial

A Secretaria de Saúde diz ter reconhecido a falta de planejamento para a compra do equipamento no início da gestão, “já que não havia   sala adequada, com paredes de chumbo e outras especificações que atendessem às orientações técnicas da Comissão de Energia Nuclear”. Em nota, a pasta diz que “não compactua com nenhum tipo de irregularidade”, que iniciou investigação e que está tomando providências. Estaria em andamento a  elaboração de um projeto que abrangerá toda a medicina nuclear do hospital, sendo possível “instalar, adequadamente e com planejamento, o aparelho, que auxilia o profissional de saúde no diagnóstico de câncer por meio de exames de imagem”.

Faltam máquinas e medicamentos

A funcionária pública Fátima Viana, 51 anos, foi diagnosticada com câncer de mama no fim de 2014 e iniciou tratamento no ano seguinte. Após passar pela quimioterapia, fez a retirada das mamas e agora passa pela radioterapia. Apesar da história de superação, ela relata as dificuldades para terminar o tratamento. 

“Vim para uma sessão de radioterapia, mas soube que a máquina está quebrada. O médico deu a previsão de uma semana para consertarem. É o cúmulo passar por isso. Há outras máquinas que deveriam ser usadas para acelerar o procedimento, mas nunca saíram da caixa”, diz.

“A Secretaria de Saúde solicitou a manutenção, mas as empresas se recusam a realizar o trabalho até que recebam o pagamento referente às dívidas de 2012 e 2013. Enquanto o problema não é solucionado, os pacientes mais graves são encaminhados ao Hospital Universitário de Brasília, que atende 45 pacientes”, informou a pasta.

Há, ainda, atendimento pela rede conveniada, onde 32 pacientes fazem tratamento, e parceria com a rede goiana para que 146 pacientes que integram a fila de espera do DF, mas moram na Região Metropolitana, sejam atendidos lá. Segundo a pasta, estudos mostram que 20% da demanda reprimida do DF são pacientes de Goiás.  

Contratação de serviço

Outra opção da secretaria é contratar o serviço de radioterapia de outros hospitais, assunto discutido no Conselho de Saúde e nos órgãos de controle, “mas as negociações dependem de revisão no preço da tabela do Sistema Único de Saúde (SUS)”. A Sociedade Brasileira de Radioterapia estima que os pacientes esperam cerca de cinco meses para serem atendidos no DF. 

Diagnosticada com câncer de mama, os problemas de Fátima Viana não cessam nos equipamentos, persistem pela falta de remédios. Ela quase interrompeu o tratamento pela ausência do Carboplatina, que está em falta desde meados do ano passado. Além dele, segundo a Secretaria de Saúde, faltam Citarabina, Bleomicina, Carboplatina, Tamoxifeno, Gentitabina e Melfano.

Os remédios são usados para tratamento de leucemias agudas, Linfoma de Hodgkin, Mieloma múltiplo, câncer de testículo, pulmão, mama, útero, cabeça e pescoço, bexiga, pâncreas e ovário. 

Ponto de Vista

Na visão do oncologista Rodrigo Pinheiro, da Associação Médica de Brasília, os problemas na área são “sintomas da falência crônica da saúde do DF”. Para ele, a falta de medicações e de equipamentos que permitem o planejamento do tratamento, como o Pet Scan, e o tratamento em si, como o da radioterapia, é “absurdamente tenebrosa para cuidar do câncer”. Ainda pior, diz, são as dificuldades de acesso às cirurgias, principal procedimento contra o câncer. A solução seria a criação de um Hospital do Câncer, que facilitaria o acesso e diminuiria o custo: “Reduziria complicações, aumentaria a chance de cura e restringiria o número de tratamentos”. Até lá, segundo ele, as coisas são feitas “na base da garra”. “Muitas vezes, usamos técnicas mais antigas em benefício do paciente. É isso ou não fazer nada. E não fazer nada é ter um desfecho desfavorável”, conclui o especialista. 


Jornal de Brasília

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