ROMERO JUCÁ E SUAS PERIPÉCIAS LONGEVAS.

22:51Carlos Alberto-Há 40 anos vivendo Brasília!


Romero, o longevo

Os cargos e os causos do senador que incendiou o governo interino de Michel Temer

Reportagem: Leandro Resende e Pedro Muxfeldt
“(…) Agradecer ao Presidente José Sarney, que me iniciou na vida pública em Brasília, me nomeou três vezes, quando Presidente, e é um grande amigo, um grande mestre, um grande condutor, que nos tem dado lições de tolerância, de perseverança, de sabedoria e de, principalmente, compromisso com o País.”
Otrecho acima foi dito por Romero Jucá (PMDB-RR) no dia 22 de março de 2005, poucos instantes após ser empossado ministro da Previdência Social do governo Lula, e é indiciária da história de um político que desde a década de 1980 sabe se deslocar para onde a maré está — com uma capacidade invejável de não se afogar. Naquela noite, dez anos depois de ocupar a vice-liderança do governo de Fernando Henrique Cardoso, o peemedebista assumia um cargo no ministeriado de seu maior opositor: era mais um passo na tortuosa estrada política do agora ex-ministro do Planejamento, que, em conversa com o ex-presidente da Transpetro, Sergio Machado, escancarou o plano do governo interino de Michel Temer para frear as investigações da Lava Jato, conforme revelou matéria da Folha de S. Paulo nesta segunda-feira (23/05).
O primeiro padrinho político de alto relevo de Romero Jucá foi Marco Maciel, quando este era governador biônico de Pernambuco, terra natal do ex-ministro interino. Graças a ele, tornou-se secretário de Habitação do estado, entre 1979 e 1982, nos estertores da ditadura militar. Depois, graças ao ex-presidente José Sarney, comandou a Fundação Nacional do Índio (Funai), em 1986, e foi nomeado governador do então território de Roraima (1988–1991), onde fixou domicílio eleitoral e se tornou um dos mais poderosos políticos do Norte do país. No começo dos anos 1990, perdeu as eleições diretas para o governo de Roraima, mas não saiu de cena. Emplacou a então esposa, Teresa, como prefeita da capital Boa Vista e chefiou a Companhia Geral de Abastecimento e a Secretaria Nacional de Habitação, já no governo Fernando Collor.
Em 1994 finalmente ganhou uma eleição, mais de uma década depois de entrar na vida pública. Foi eleito pelo extinto PPR, partido criado a partir da união do PDS (ex-Arena) com o PDC e que tinha como figura mais proeminente Paulo Maluf, então prefeito de São Paulo. Logo depois de empossado rumou para o PFL (hoje DEM), liderado por Antônio Carlos Magalhães. Em seguida, Jucá filiou-se ao PSDB, o partido do poder à época. Nele, galgou espaço até se tornar vice-líder do governo FHC no Senado.
Leal, foi tucano até o poder mudar de mãos: em 2003, engrossou as fileiras do PMDB, reencontrando José Sarney e vislumbrando a chance de conseguir um naco de poder no governo Lula. Não demorou muito e assumiu o Ministério da Previdência Social em 2005, de onde saiu três meses depois, acossado por denúncias de corrupção. Como prêmio, ganhou de Lula e de Dilma Rousseff o posto de líder do governo no Senado, posto que ocupou até2012.
Não tardou para Jucá mudar de lado mais uma vez. Nas eleições de 2014, fez campanha para o candidato do PSDB, Aécio Neves. Com a vitória de Dilma sobre o tucano e o crescimento dos movimentos pelo impeachment da presidenta, foi um dos principais artífices da saída do PMDB do governo, decisão anunciada por Jucá, Cunha e Eliseu Padilha, hoje na Casa Civil, em convenção do partido em 30 de março, possivelmente poucos dias após a conversa com Sérgio Machado tornada pública hoje.

Naúltima vez em que prestou contas à Justiça Eleitoral, Romero Jucá era dono de patrimônio relativamente modesto. Em 2010, declarou possuir R$ 607 mil em bens, sendo R$ 545 mil em dinheiro vivo. Propriedade dele apenas um terreno na praia de Pau Amarelo, em Pernambuco, no valor de R$ 4 mil. Nenhuma menção à TV Caburaí, retransmissora da Rede Bandeirantes em Roraima e de propriedade da família Jucá, de acordo com inquérito do Supremo Tribunal Federal. Nada, também, sobre a fazenda em que ele vivia com a ex-mulher, avaliada em R$ 10 milhões. Faltam muitos outros bens. Em 2011, a Revista Época revelou que Jucá distribuía seu patrimônio entre o filho Rodrigo, que já foi deputado estadual, o irmão Álvaro e Geraldo Magela Fernandes, seu laranja. Segundo os cálculos da revista, Jucá tinha, na época, R$ 4,4 milhões em bens e empresas que atuavam desde a venda de material de construção até a administração de shoppings.
O caso de ocultação de patrimônio é só uma das tantas acusações que o político sofreu ao longo da vida pública. A primeira delas remonta a 1983. Secretário da Cohab de Pernambuco, Jucá foi acusado pelo deputado estadual Ricardo Selva (PMDB-PE) de ter comprado votos para a eleição de Roberto Magalhães (PDS-PE) ao governo de Pernambuco no ano anterior. Os cheques, com valores entre 50 mil e 200 mil cruzeiros, foram dados a eleitores por Jucá durante comício no Recife.
    
Defensor do garimpo, Jucá queria recolher impostos da exploração do ouro no estado. Imagem: Arquivo Jornal do Brasil (14/07/1989)
Três anos depois, o Tribunal de Contas da União (TCU) interveio na Funai, que ele presidia na época, por irregularidades financeiras. Uma delas, que lhe rendeu investigação em 1990, era a suspeita de que Jucá teria recebido propina para liberação de contratos de exploração madeireira em território indígena. Em 1989, já como governador nomeado de Roraima, esteve no centro das disputas entre índios ianomâmi e garimpeiros, que invadiam território demarcado para exploração de ouro. Jucá foi ferrenho defensor da legalização do garimpo, mas o governo Sarney acabou retirando cerca de 15 mil garimpeiros da região ao final daquele ano. Em Roraima, também criou o Disque Corrupção.
Ainda no mesmo ano, Jucá vai chamado a depor na Câmara dos Deputados por denúncias contra sua administração feitas pela deputada federal Marluce Pinto (PTB-RR). Em sua defesa, o governador afirmou se tratarem de “denúncias bobas e politiqueiras de quem nada tem feito pelo estado”. Vinte e um anos depois, Jucá fez campanha para o Senado com Marluce como sua companheira na coligação União por Roraima. Só ele se elegeu para o terceiro mandato de senador.
Em 1994, na primeira vez que chegou à Câmara Alta, Jucá por pouco não assume. Eleito em outubro com poucos mais de 30 mil votos, teve seus direitos políticos cassados pelo TSE por três anos por abuso de poder econômico e uso da máquina pública na campanha — Teresa, sua mulher à época, era prefeita de Boa Vista. Em janeiro de 1995, um mês antes da posse, foi denunciado pelo Ministério Público por corrupção, formação de quadrilha e peculato referente ao período à frente da Funai. Apesar dos pesares, foi empossado em fevereiro e finalmente chegou ao centro do poder nacional.
No primeiro mandato de FHC, manteve-se discreto, porém sempre ao lado do governo. Votou inclusive a favor da emenda da reeleição em 1997. Pouco depois da aprovação no Congresso, veio a público conversa entre os deputados Ronivon Santiago (PFL-AC) e João Maia (PFL-AC) sobre pagamentos de até R$ 200 mil para parlamentares apoiarem a proposta. O caso, que envolveu diversos nomes da política da Região Norte, não chegou diretamente a Jucá.

Jucá pediu licença do cargo de ministro do Planejamento. 

                                 Foto: Antônio Cruz / Agência Brasil

Reeleito, FHC nomeou Jucá líder do governo e pela primeira vez um áudio colocou o senador nas páginas dos jornais. Presidente da Comissão de Fiscalização e Controle do Senado, o então tucano foi um dos responsáveis por analisar gravações que implicavam o senador Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA) de envolvimento no escândalo de violação do painel de votação. ACM renunciou ao mandato para se livrar da cassação.
Já no PMDB e com Lula na presidência, Jucá chegou pela primeira vez ao posto de ministro em 2005, para comandar a Previdência Social. Durou cerca de três meses no cargo. Mesmo antes da nomeação, foi denunciado pela realização de empréstimos ilegais junto ao Banco da Amazônia em prol da empresa Frangonorte, da qual era um dos sócios. Apesar de negar inclusive participação na companhia — a propriedade nunca constou em suas declarações de bens à Justiça Eleitoral — , deixou o cargo e voltou ao Senado. Em 2008, o caso prescreveu e foi arquivado pelo ministro do STF Cezar Peluso.
Ainda em 2005, Jucá passou incólume pelo escândalo do mensalão, primeiro grande caso de corrupção envolvendo a administração petista. Da Lava Jato, porém, seu nome não ficou de fora. Atualmente, é alvo de inquérito no STF por corrupção, formação de quadrilha e lavagem de dinheiro pelos desvios na Petrobras. Jucá foi citado nas delações do ex-diretor de Abastecimento da estatal, Paulo Roberto Costa e do seu ex-colega de Senado, Delcídio do Amaral.
Ao lado do correligionário e presidente do Senado, Renan Calheiros, ele também está sendo investigado no âmbito da Operação Zelotes. A acusação nesse caso é de venda de emendas em medidas provisórias no interesse de montadoras de veículos. Além da dupla, constava em bloco de anotações do ex-auditor fiscal João Batista Gruginski, investigado pela Polícia Federal, o nome do ex-senador Gim Argello (PTB-DF), preso pela Lava Jato há dois meses.
Às duas investigações somam-se outros três inquéritos em andamento no STFcontra Jucá. Eles apuram, respectivamente, crime de responsabilidade, crimes eleitorais e falsidade ideológica, crime contra o patrimônio e contra a ordem tributária. Também há no tribunal decisão já proferida para ressarcimento à União de quantias irregulares acrescidas a salários de funcionários da Funai. O período à frente do órgão de proteção ao índio não abandona o senador.
Habituado aos postos de comando, Jucá nunca chegou tão alto quanto no governo Temer. Uma ação sua também nunca causou tanto estrago quanto agora. O estilo de camaleão da política, curtido em 30 anos nas rodas do poder, precisará agora ser posto em prática à perfeição pelo senador para escapar de mais essa. O que vai acontecer? É imprevisível tendo em vista as recentes mudanças bruscas de roteiro em Brasília.
https://medium.com/@revistaapuro

Você pode gostar de...

0 comentários

Criticas ou sugestões?

Nome

E-mail *

Mensagem *

Visitantes